Que o título não choque – por muito que considere que se apropria a uma grande parte dos portugueses... - sendo que desde já confesso que o roubei à denominação de umas interessantes tertúlias que outrora tinham lugar no Teatro São Luiz, em Lisboa, as quais debatiam matéria cultural num país em que a mesma é preterida.
Dá pano para mangas, este assunto. Quero por isso cingi-lo ao plano local, que neste país creio ser exemplar no que toca a política cultural com rumo e visão, contrariando a ideia instalada de que a Cultura tende a ser menosprezada pelos políticos (mormente, os de Direita), ideia essa que dá azo a que a Esquerda indevidamente se arrogue padroeira da Cultura e que cavalgue esse mito, pese embora possa reconhecer que os sectores não marxistas precisem de concentrar as baterias um pouco menos na vertente patrimonial, como, aliás, o faz (e bem) o nosso Executivo...
Se tempo houve em que abundava o queixume pelo défice de dedicação dos autarcas à Cultura, hoje parece-me bem que é o povo quem menos estima o investimento cultural, quem menos reconhece o que a cultura pode fazer pelo seu desenvolvimento pessoal enquanto formação integral como ser humano, deixando-se atolar na (in)cultura televisiva e no folhetim de uma crescente imprensa cor-de-rosa (sem alusões partidárias, neste caso).
Orgulhosamente constato que a política cultural de Alcobaça é reconhecida pelo país fora, destacando-se pela programação ecléctica e de qualidade do Cine-Teatro, pela aposta contínua em eventos que já são uma marca - veja-se os Doces Conventuais, o Mundo da Maçã, a Feira Medieval, etc. - e, sobretudo, pelo olhar atento e concomitante sobre o seu Património, mostrando que as vertentes criativa e histórica são conciliáveis.
Na berlinda anda não só o destino do nosso Mosteiro mas, outrossim, a Rede Museológica do concelho. Do Museu da Cerâmica (temática sobre a qual já aqui me debrucei) ao Museu do Vinho (vergonhosamente votado ao esquecimento, mercê das incompreensíveis medidas deste Governo...), passando pela Casa-Museu Vieira Natividade e, mais recentemente, o Museu das Telecomunicações.
Relativamente a este último, enquanto celense e enquanto autarca da freguesia da Cela, muito me congratulo pela decisão da autarquia em adquirir o espólio de José Madeira Neves, coleccionador que desde a década de 70 reuniu num espaço localizado na Cela Velha quase um milhar de peças de tecnologias de comunicações que compõem um acervo cultural único que cumpre preservar e divulgar.
Cumpre-me aqui defender que esse mesmo espólio se mantenha na Freguesia, em local propício à sua conservação e favorável à sua mostra permanente. Neste sentido, muito me apraz ter ouvido recentemente o nosso edil a argumentar que não se deve concentrar todo o nosso património num só local. Subscrevo inteiramente. Alcobaça não é – nem deve ser - só o Mosteiro, por muito relevo que este tenha no nosso património.
A vila da Cela, à semelhança de outras antigas vilas dos Coutos de Alcobaça, tem um pendor cultural considerável que se pode valorizar ao aliar um pólo museológico aos seus monumentos de relevo – igreja, pelourinho e Monumento ao General Humberto Delgado – tornando-se assim um eixo cultural no plano concelhio, à semelhança do que sucede na freguesia vizinha do Bárrio.
O Concelho precisa de multiplicar as suas centralidades, com os benefícios que essa opção acarreta, desde logo, incentivando quem nos visita a ficar mais do que as horas necessárias à fruição do centro de Alcobaça e a fazer despesa nos nossos domínios, estimulando a hotelaria e o comércio locais.
Tem andado bem na cultura Gonçalves Sapinho e andará mal quem ousar beliscar, por demagogia, uma das autarquias modelo neste âmbito.
*Também publicado aqui